Tesouro marinho em risco

Conheça as espécies de tartarugas marinhas ameaçadas de extinção no Brasil – e os esforços para protegê-las

Por Ana Clara Faria | 22 de outubro de 2019

Sinal de vida: os ovos se quebram na areia morna e dezenas de filhotes de tartaruga iniciam sua jornada em direção ao mar. Cenas como essa podem ser vistas no litoral brasileiro, que abriga cinco espécies de tartarugas marinhas – no mundo, ao todo, são sete. Com ciclos de vida que duram décadas, atingindo a fase adulta em um período que varia, em média, de 20 a 30 anos, as tartarugas marinhas têm o sexo determinado após a desova, dependendo da temperatura da areia: se for mais baixa, nascerão machos; se for mais alta, serão fêmeas. Componente importante da biodiversidade mundial, elas são parte da cadeia alimentar marinha e realizam amplos movimentos migratórios, o que explica a presença das tartarugas pelos oceanos do mundo – dos trópicos até as regiões temperadas e próximas dos polos.

Tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea)
Tartaruga-oliva | Crédito: Nana Brasil/Acervo Tamar

No entanto, as cinco espécies que ocorrem no Brasil estão ameaçadas de extinção, como confirmado pelas últimas portarias do Ministério do Meio Ambiente sobre a situação da fauna brasileira. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) aponta, dentre os fatores relacionados à diminuição da população de tartarugas no litoral brasileiro, as atividades humanas – principalmente a pesca, que pode resultar na captura do animal. Outros fatores de ameaça às tartarugas marinhas são a poluição das praias – incluindo o descarte inadequado de lixo nas regiões litorâneas –, as intervenções urbanas nas costas – decorrentes, entre outros fatores, de construções e tráfego intenso de veículos e pessoas – e as mudanças climáticas, que podem modificar o hábitat e, assim, alterar o ciclo de vida das tartarugas marinhas.

Veja a seguir as principais características e o status de conservação das cinco espécies de tartarugas marinhas encontradas no Brasil:  

TARTARUGA-CABEÇUDA

Ilustração da tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta)
Tartaruga-cabeçuda | Arte: Ana Clara Faria

Nome científico: Caretta caretta
Status: Em Perigo (EN)
Localização geográfica: mares tropicais, subtropicais e temperados
Principais áreas de desova no Brasil: norte da Bahia, Espírito Santo, norte do Rio de Janeiro e Sergipe
Peso médio: 140 kg
Comprimento do casco: até 1,36 metro
Alimentação: principalmente caranguejos, mexilhões e moluscos
Atinge a maturidade reprodutiva entre 25 e 35 anos.


TARTARUGA-VERDE

Ilustração da tartaruga-verde (Chelonia mydas)
Tartaruga-verde | Arte: Ana Clara Faria

Nome científico: Chelonia mydas
Status: Vulnerável (VU)
Localização geográfica: mares tropicais e subtropicais (tartarugas jovens também são encontradas em regiões temperadas)
Principais áreas de desova no Brasil: ilhas oceânicas de Fernando de Noronha (PE), Atol das Rocas (RN) e Ilha da Trindade (ES)
Peso médio: 160 kg
Comprimento do casco: até 1,43 metro
Alimentação: macroalgas e fanerógamas (herbívoras após a fase pelágica, isto é, longe do fundo do mar); nos primeiros anos de vida, além das algas e plantas marinhas, alimentam-se também de peixes e moluscos.
Atinge a maturidade reprodutiva entre 25 e 50 anos.


TARTARUGA-DE-PENTE

Ilustração da tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata)
Tartaruga-de-pente | Arte: Ana Clara Faria

Nome científico: Eretmochelys imbricata
Status: Criticamente em Perigo (CR)
Localização geográfica: mares tropicais e subtropicais
Principais áreas de desova no Brasil: litoral norte da Bahia e Sergipe e litoral sul do Rio Grande do Norte
Peso médio: 86 kg
Comprimento do casco: até 1,10 metro
Alimentação: crustáceos, moluscos, celenterados, esponjas, algas, entre outros
Atinge a maturidade reprodutiva aproximadamente aos 25 anos.


TARTARUGA-OLIVA

Ilustração da tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea)
Tartaruga-oliva | Arte: Ana Clara Faria

Nome científico: Lepidochelys olivacea
Status: Em Perigo (EN)
Localização geográfica: oceanos Pacífico, Índico e Atlântico
Principais áreas de desova no Brasil: entre o litoral sul do Alagoas e o litoral norte da Bahia (com área de maior densidade de desova em Sergipe)
Peso médio: 42 kg
Comprimento do casco: média de 72 cm
Alimentação: salpas, peixes, moluscos, crustáceos, algas, entre outros
Atinge a maturidade reprodutiva entre 10 e 18 anos (no oceano Pacífico).


TARTARUGA-DE-COURO

Ilustração da tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea)
Tartaruga-de-couro | Arte: Ana Clara Faria

Nome científico: Dermochelys coriacea
Status: Criticamente em Perigo (CR)
Localização geográfica: oceanos tropicais e temperados
Principais áreas de desova no Brasil: litoral norte do Espírito Santo
Peso médio: 400 kg
Comprimento do casco: cerca de 1,5 metro, chegando a até 1,78 metro
Alimentação: salpas, celenterados (como águas-vivas, caravelas e medusas) e pirossomos (conhecidos como “unicórnios do mar”)
Atinge a maturidade reprodutiva entre 13 e 29 anos.

Fontes: Página oficial do Projeto Tamar (https://tamar.org.br);
Plano de Ação Nacional para Conservação das Tartarugas Marinhas (Disponível em: http://www.icmbio.gov.br/portal/images/stories/docs-plano-de-acao/pan-tartarugas/livro_tartarugas.pdf );
Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, Vol. IV, Répteis, 2018 (Disponível em: http://www.icmbio.gov.br/portal/component/content/article/10187);
Tamar em revista. Tartarugas marinhas, passado, presente e futuro pela vida. 2ª ed. Solisluna editora. Coordenação Nacional do Projeto Tamar.

Projeto Tamar: 39 anos de história e conservação

Apesar das ameaças às espécies de tartarugas marinhas, os esforços para protegê-las fazem parte da pauta ambiental brasileira há décadas; uma dessas iniciativas, que em 2020 completa quarenta anos, é o Projeto Tamar. Criado em 1980, sua atuação é direcionada à conservação das cinco espécies existentes no país por meio de ações de pesquisa, monitoramento e conscientização sobre as formas de preservação das tartarugas. O projeto está presente em 26 localidades de nove estados, abrangendo 1.100 quilômetros de área litorânea que são hábitat dessas espécies.

Projeto Tamar: Oceanário de Aracaju (SE) | Crédito: Ana Clara Faria

Combate à captura de tartarugas marinhas

Com o objetivo de minimizar a captura das espécies, o projeto também realiza o monitoramento da atividade pesqueira – uma das principais ameaças humanas a esses animais. “O Centro Tamar/ICMBio monitora as principais pescarias que interagem com as tartarugas marinhas, promovendo visitas periódicas aos portos de desembarque para registro de embarcações e entrevistas com os pescadores no intuito de coletar informações sobre viagens de pesca e tartarugas capturadas”, explica Evandro Arruda De Martini, técnico ambiental do Centro Tamar. “Nestas ocasiões, também são realizadas atividades de divulgação de boas práticas e medidas mitigadoras para a redução das capturas de tartarugas marinhas”, completa.

Martini afirma que outro trabalho realizado é o monitoramento in loco da pesca por meio de cruzeiros: “um observador de bordo acompanha a viagem de uma embarcação pesqueira e auxilia nos testes das medidas mitigadoras, tais como o anzol circular e ferramentas para não molestar as tartarugas capturadas incidentalmente “, diz.

Tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea)
Tartaruga-oliva | Crédito: Nana Brasil/Acervo Tamar

Resultados

O Tamar aponta que, a cada ano, cerca de 30 mil ninhos de tartaruga marinha são protegidos pela iniciativa; nos quase 40 anos de existência, o projeto afirma que já devolveu ao mar mais de 37 milhões de filhotes de tartaruga. Martini observa que, ao longo dos anos, houve uma evolução na conservação das cinco espécies que ocorrem no Brasil: “As ações contínuas de conservação desenvolvidas há quase quatro décadas permitiram que as populações de tartarugas marinhas apresentassem sinais de recuperação. Algumas espécies apresentaram índices mais robustos, como é o caso da tartaruga-oliva”, comenta.

“Um crescimento no número de ninhos desta espécie foi observado mediante análise dos dados coletados em Sergipe e Bahia entre 1991/1992 (252 desovas), 2002/2003 (2.602 desovas) e 2013/2014 (8.764 desovas). Durante a temporada reprodutiva cada fêmea da espécie oliva costuma desovar entre uma e três vezes”.

Evandro Arruda de Martini, técnico ambiental do Centro Tamar/ICMBio

Gráfico sobre o número de desovas de tartarugas marinhas no Brasil, entre os anos de 1981 e 2018.

Ao longo de sua história, o Projeto Tamar ainda recebeu prêmios nacionais e internacionais por sua atuação na conservação das tartarugas marinhas – como o Science for Conservation, em 1994, o Heroes of the Planet, em 1998 (ambos dos Estados Unidos), e o Prêmio UNESCO 2003 na categoria Meio Ambiente.

Manchas de óleo e trabalho de conservação das cinco espécies

Devido ao caso recente das manchas de óleo no litoral nordestino, o Projeto Tamar tem intensificado seus esforços de conservação das espécies de tartaruga que habitam áreas afetadas. O foco da ação são as praias de Sergipe e do norte da Bahia, locais em que, segundo o projeto, ocorrem três espécies de tartarugas marinhas – tartaruga-oliva (Lepidochelys olivacea), tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta) e tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata).

De acordo com relatório divulgado pelo Ibama em 31 de outubro de 2019, o projeto (em ação conjunta entre o Centro Tamar, o ICMBio e a Fundação Pró-Tamar) havia capturado preventivamente e liberado em alto mar 2179 filhotes de tartarugas marinhas em Sergipe e 1205 no estado da Bahia.

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